Adeus

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Eu, junto com milhões, talvez até bilhões, acendemos uma vela no dia 5 de Dezembro de 2013 em memória a Nelson Rolihlahla Mandela, Madiba or Tata, como ele também é carinhosamente conhecido na língua Xhosa de sua terra natal, Azania, conhecida agora através de seu nome colonial e pós- apartheid, África do Sul.

A luz da vela tem muitos significados em muitas sociedades. A luz significa revelar um caminho para uma nova jornada. Para os vivos, a luz brilha sobre nós uma forma de conexão contínua, revelando-nos algo sobre o qual devemos refletir. E, para aqueles profundamente religiosos, algo que deve ser deixado através de sua própria trajetória. Isso nos lembra, conforme a oração de luto do Judaísmo, o Kaddish, que tudo é finalmente deixado nas mãos de Deus.

Mandela morreu da forma como viveu. Sua vida foi um paradoxo entre a paz e a violência, lutando contra o ódio com coragem e amor. Ele morreu de uma maneira saudável, enfrentando a doença corajosamente com status incomum de um ex-funcionário de um país Africano, cuja grandeza moral fez dele um líder perpétuo. Enquanto enfrentava violência e sofrimento, ao longo de sua vida, morreu naquela que é a metáfora certa para o que cultivou: a paz.

Muitos adjetivos podem ser citados para oferecer uma compreensão do que este grande homem representou. Talvez, dois adjetivos sejam mais adequados no momento: a coragem e a dignidade.

Possivelmente, os 27 anos como um prisioneiro político sobre o infame Robben Island poderiam ter sido evitados se ele não tivesse insistido em uma libertação incondicional. Sua grandeza, a luta encampada para libertação e o grito de guerra de sua missão humanitária, mantiveram-se como um lembrete para aqueles que olham para os africanos e, levianamente, tentam pensar o contrário: as forças do colonialismo, misantropia e do racismo sempre estiveram equivocadas e continuam estando. Mandela levantou-se em oposição a isso e ousou declarar: “Nós somos seres humanos.”

Muitos se recusaram a ouvir, mas os rumos da história foram contra o apartheid. Devemos lembrar que o sistema de segregação criado pelo governo independente Sul-Africano de 1948 até 1994 abarcava um conjunto de instituições copiado dos Estados Unidos. A luta tomou muitas formas, vários protestos civis, insurreição, e um eventual estratagema econômico de desinvestimento aleijaram a economia desse regime racista. Mas o mundo também trouxe, ao longo de gerações, como a juventude em Londres, Inglaterra, o poder da música, com o sucesso de 1984, “Libertem Nelson Mandela,” escrita por Jerry Dammers e interpretada por The AKA Especial. A música tornou-se um hino da luta antiapartheid e, ofereceu, no final, o que muitas pessoas continuam a querer por trás da maioria das lutas de libertação: um Messias.

A luta antiapartheid revelou muitos revolucionários, como Steven Bantu Biko (o principal teórico da Consciência Negra) e Chris Hani (líder do Partido Comunista Sul-Africano). O primeiro foi assassinado em 1977, o segundo, em 1993. Muitas coisas se desenrolaram a partir de 1994, quando Mandela se tornou presidente , de que Biko e Hani não as teriam aprovado. Mandela se juntou a eles agora como um ancestral, mas o seu lugar na memória histórica traz uma palavra adicional como foco, um mais palatável ao mundo político que se revelou, talvez seja, uma perigosa armadilha de paradoxo, como podemos ver em um Barack Obama, que talvez não pudesse ter sido, senão para a primazia de Mandela: liderança moral.

Sim, a África do Sul era uma imitação dos Estados Unidos, e, em seguida, a criança tornou-se pai, quando os EUA recentemente ecoaram da África do Sul nas eleições presidenciais de Obama, nenhuma questão aborda as falhas morais de ambos os países mais do que seu passado e presente racistas. Ironia é tentar salvar esses países da incorporação de seu maior medo, ou seja, a representação negra. No entanto, uma figura assim, não poderia emergir como uma representação negra. O que significou mais um paradoxo como vemos na África do Sul de hoje e nos Estados Unidos: Messias são exceções por definição, não regras. Os prêmios por si só não poderiam ser o modelo de um homem ou mulher todos os dias:

Prêmio Nobel da Paz, Bharat Ratna, Personalidade da Time do Ano, Prêmio Sakharov, Medalha Presidencial da Liberdade:

Medalha Congressional de Ouro, Prêmio Arthur Ashe Courage, Medalha Jubileu de Diamante da Rainha Elizabeth II, Prêmio da Paz Gandhi, Medalha da Liberdade Filadélfia, Prêmio Jawaharlal Nehru pelo Entendimento Internacional, Prêmio da Paz Lênin, Medalha Jubileu de outro Rainha Elizabeth II, Nishan - e- Pakistan, Prêmio Internacional Al- Kadafi para Direitos Humanos, Prêmio Embaixador da Consciência, Prêmio Internacional Simón Bolívar, Prêmio das Nações Unidas no domínio dos Direitos Humanos, Ordem do Nilo, Prêmio Cidadania Mundial, Prêmio U Thant da Paz, Prêmio Félix Houphouët- Boigny da Paz, Medalha Isitwalandwe, Prêmio Indira Gandhi de Justiça e Harmonia Internacional, Liberdade da Cidade de Aberdeen , Prêmio Bruno Kreisky Award , Prêmio da Paz da UNESCO, Prêmio Carter- Menil de Direitos Humanos, Prêmio de distinção humanitária Bispo John T. Walker, Medalha Giuseppe Motta, Prêmio Internacional de Direitos Humanos  Ludovic - Tra rieux, Prêmio para o Entendimento Internacional  J. William Fulbright, Medalha Internacional W E B DuBois, Prêmio Príncipe da Astúrias para a Cooperação Internacional, Prêmio do ano da Harvard Business School Statesman. 

A lista de Obama não é muito diferente, e inclui muitos prêmios que agora levam seu nome.

No entanto, novamente, a exceção não é, por definição, a regra. Pode-se amar Mandela e Obama, enquanto continua-se a odiar os negros. Enquanto a vida simbólica dos mais altos cargos mudou, a vida mundana da maioria das pessoas de todas as raças permanece a mesma.

Um dos travestis da agressão contra a humanidade que marcou o mundo moderno é que a moral dos homens poderia supervisionar o mais cruel dos regimes. No entanto, não poderíamos deixar de insistir no ridículo. E, se esses grandes homens, por conseguinte, tivessem tentado ser imorais? O que poderíamos dizer sobre um mundo que se fez ser ético, que é ainda maior do que moral? Seria a maneira mais certa de parecer como um tolo? Pessoas morais nem sempre são éticas. O primeiro a seguir as regras sempre tenta fazer o que é certo. Mas as pessoas éticas, por vezes, parecem imorais. Elas, em geral, são pessoas corajosas que sofrem muito com um mundo que pode feri-las, golpeando-as, a partir de uma imperfeição óbvia, marcada pela coragem, de quebrar as regras.

O mundo quer Messias. Contudo, Deus continua enviando-nos seres humanos. Temos sorte, no entanto, que alguns deles acabam por ser um pouco mais que realmente tinham imaginado.

Tenho escrito muito sobre Frantz Fanon, o psiquiatra revolucionário famoso e filósofo da libertação, que morreu no dia 6 de dezembro de 1961. Mandela era 7 anos mais velho que Fanon e sobreviveu um curto dia de 42 anos. Fanon enfrentou violência, mas morreu de pneumonia devido a complicações da leucemia. Embora aparentemente aleatório, é estranho que estes dois grandes homens morreram a partir do que se resume a infecções de seus pulmões. Nossos pulmões, no entanto, permitir-nos respirar e a consciência mítica nos lembra que eles motivam o sopro da vida. As ações desses grandes homens foram como o sopro de vida às nações para as quais eles lutaram. Com a morte deles, seus filhos e a nação enfrentam o lembrete assustador: ninguém vive para sempre.

A sabedoria de Mandela foi servir um mandato como presidente da África do Sul. A razão política e filosófica foi classicamente fanoniana: consciente dos problemas Moisés, onde aqueles que lideraram o caminho para a Terra Prometida também são os mais capazes de colocar em risco, Mandela decidiu criar, por exemplo, um caminho alternativo do que aconteceu em muitos outros estados pós-coloniais, onde, depois de se livrar dos colonizadores, os libertadores tornaram-se os maiores obstáculos para a verdadeira liberdade.

No entanto, penso que este grande homem também tinha uma consideração adicional em mente. Mandela entendia-se como uma ideia. A grandiosidade do seu pensamento representou muito mais do que sua própria imagem física. Enquanto modelo inspirador, também era perigoso porque a vida política exige possibilidade. Se o obstáculo é difícil, não há nada que podemos fazer para ultrapassá-lo? Que padrão mais elevado poderia haver do que se tornar um deus?

A decisão de Mandela para servir um mandato foi também, como grande parte de sua vida, um paradoxo. Pisando para o lado, deixando espaço para os outros, ele ironicamente definiu um padrão ainda mais elevado: a humildade, cujo amor é a paciência e, a fé democrática. Dessa forma, ele estabeleceu um padrão de possibilidade humana.

Então, ao contemplar o brilho da chama quando se eventualmente apaga, eu digo, na apreciação compartilhada por muitos:

Obrigado, Nelson Rolihlahla Mandela, suas ações inspiram muitos de nós a se imaginar alto e, ao mesmo tempo, nos lembram de que você foi, antes de tudo, um ser humano, com muitas limitações personificadas, as quais tornam a esperança, o amor e possibilidade tão preciosos.

Adeus, Madiba. Adeus.

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Traduzido por Rosemere Ferreira da Silva

© Lewis R. Gordon